Cyro Martins - Instituto de Psiquiatria

Artigos

O Instituto Cyro Martins disponibiliza artigos interessantes para o conhecimento e atualização de nossos estudantes e profissionais. Confira você também nosso material de leitura.

Resiliência e/ou Vontade de Potência

Publicado dia: 10/06/2016


Levando Nietzsche para a clínica psicanalítica grupal

Viviane Costa de Souza Buriol

viviburiol@yahoo.com.br

“A única coisa que não se pode suportar é quando a música para!” Nietzsche

 

Trabalho apresentado na XVI Jornada Científica do instituto Cyro Martins, “VÍNCULOS RAR EFEITOS: PARADOXOS DA ATUALIDADE”, em novembro de 2013.

O objetivo deste texto é promover uma breve reflexão de observações feitas a partir de leituras da obra do filósofo Nietzsche. Tendo como referência conceitos deste autor, penso no manejo do tratamento para mulheres deprimidas convidadas a participar de um grupo terapêutico para tratar sintomas e promover o resgate de sua autoestima.

Nietzsche, em sua teoria da Vontade de Potência se refere a um imperativo interno de crescimento, de uma lei de vontade que permite crescer, tornar-se o que se é, a fim de não perecer, a uma capacidade do ser humano de interpretar a realidade em sua totalidade, não se tratando de um poder inerente à vontade que se exprimiria pelo comando.  A vontade de potência lembrou –me o conceito de resiliência, processo que permite retomar algum tipo de desenvolvimento, apesar de um traumatismo ou de circunstâncias adversas (CYRULNIK B, 2005), teoria que com frequência me vinha à mente relacionando aos desfechos na resolução de problemas de mulheres do grupo. Em ambos os conceitos, há uma movimentação em busca de satisfação, de contato com a vida, e entendo que uma vontade de se conectar com o mundo aceitando que existem leis da natureza que mobilizam sentimentos e acontecimentos, mas que existe também uma força interior de natureza humana, que impulsiona para querer mais a vida.

Para Cyrulnik (2006), através de vínculos capazes de constituir uma permanência afetiva que dê sentido à existência é possível o desenvolvimento da resiliência. Este autor nos diz que é preciso ter passado por uma experiência traumática, ou seja, ter se sentido invadido, ferido, para resilir e voltar à vida, lutar contra a infelicidade ao mesmo tempo em que mantém a ferida na memória.

Nietzsche em seu livro, “Assim falava Zaratustra”, conta sobre o personagem que passa dez anos só, em uma caverna, sente necessidade de sair para estabelecer trocas com os outros homens, falar de sua experiência e de suas teorias, idealizadas em seus momentos de solidão, e ver os homens sentirem-se mexidos, desestabilizar seus conceitos prévios para no lugar destes pensarem de um novo modo; e, mesmo não sendo compreendido da forma como gostaria, Zaratustra sente uma necessidade de retornar ao contato com os mesmos homens depois de fazer o percurso de volta a caverna e a solidão vezes seguidas.

Quando deprimido, o indivíduo tem uma visão distorcida do mundo a sua volta e atributos como maleabilidade e pró-atividade estão pouco desenvolvidos. A sensação de incapacidade, de inferioridade e a percepção do ambiente como hostil, cheio de obstáculos, prejudica largamente sua confiança no futuro, chegando em sua forma mais extrema a crises de pânico, de pensamentos e tentativas de suicídio. Estar em grupo é um elemento favorecedor para pessoas com depressão, pois neste espaço exercitam sua capacidade reparatória, ajudando outras pessoas com colocações importantes através da narração de suas experiências e tiram daí a possibilidade de verem a própria situação a partir de outro ponto de vista (aspectos positivos, negativos e potenciais) e a mobilizar recursos próprios, subjetivos e sociais (ZIMERMAN D.E, 1997). A vontade de potência pode ser fomentada neste espaço de trocas, e de alguma forma, “como pensa Zaratustra a cada vez que sai da caverna ao encontro do homem”, o terapeuta nos encontros com o indivíduo deprimido pensa promover a possibilidade de uma nova visão de si mesmo e do todo, uma visão positiva e de potência. O personagem de Nietzsche pensava em potencializar nos homens um intuito de viver com responsabilidade por aquilo que se passa em suas vidas, deixando de atribuir ao divino suas conquistas ou desventuras. Entendo assim sua teoria sobre a morte de Deus, quando propõe aos homens que pensem sobre eles mesmos serem os senhores de seus destinos, o que sugere que se seus valores devem ser reavaliados pelo próprio homem, rejeitando todas as formas de sobrenatural que colocam o espirito acima da natureza.

Para Nietzsche existe uma moral que o homem experimenta frequentemente e que reprime seus impulsos ativos. A vontade de potência quer expandir-se, quer ir além do instinto de preservação, é vontade de posse da existência como um todo e de si mesmo. Trata-se de atitude positiva e de vontade de viver, de atitude psíquica de uma alma forte que quer continuar mostrando coragem e alimentando a si mesma. Desta forma, o ressentimento, que frequentemente faz parte do discurso deprimido, é visto por Nietzsche como consequência inevitável das restrições instintuais auto-impostas pelo homem civilizado e que deve ser reelaborado, repensado, redefinido e extinguido do repertório de pensamentos para que a vontade de potência tenha espaço de forma ativa.

A teoria psicanalítica valoriza a subjetividade e as experiências passadas como norteadoras do comportamento, bem como atenta para experiências novas como possibilidade de ressignificar os vínculos. Através do relato, segundo Cyrulnik, a pessoa tem a possibilidade de mudar a visão que tem de si mesma, dando sentido ao trauma, que está confuso dentro do psiquismo de quem o sente paralisando e dificultando qualquer tomada de decisão. Assim, enquanto realidades psíquicas e sociais se envolvem, permitem que a imagem que se tem de si seja modificada, e a resiliência é então possível.

As queixas repetitivas do sujeito ressentido servem ao mecanismo de defesa do eu. Em processo de análise, as queixas ressentidas trabalham contra a associação livre e impedem a implicação subjetiva do analisando (como na religião, a figura de um Deus transcendente). O ressentido atribui toda responsabilidade a um outro – mais poderoso que ele, que o vitimou (KEHL, M.R, 2004). O grupo terapêutico, por se tratar de um espaço em que há comunicação e interação, pode ser considerado como um ambiente reparador. Através da troca, entre os relatos e a escuta, tem-se a oportunidade de que os momentos vivenciados sejam transformadores. Encorajadas a resolver os problemas do grupo de forma coletiva, as mulheres sentem a valorização de suas opiniões, o que se constitui em ensaio dentro de um ambiente protegido onde tem a possibilidade de se manifestar sem consequências desastrosas, já que tudo pode ser mais bem compreendido e interpretado terapeuticamente no campo grupal. A partir disto, a experiência positiva se mostra como uma mola impulsionadora para a tomada de decisões e atitudes na vida fora daquele espaço.

Sentimentos como autoestima, fé, autoconfiança e responsabilidade, enfraquecidos ou inexistentes dificultam a capacidade de serem ou se tornarem resilientes diante de seus problemas, porém quando lembranças de abandono, abuso, violência, desconforto e desconfiança tem espaço para ressignificação a partir do relato e da superação das adversidades, se abre uma nova possibilidade de existir e se personalizar diante de si mesmas. O encontro com outras pessoas e consigo mesmas, o interesse pela fala das colegas que através de questionamentos, acolhimento ou afirmações, ajudam a reconstruir uma história pessoal até então paralisante por ser portadora de intenso sofrimento psíquico, cria possibilidade para a atividade, a tomada de atitude e decisão e quem sabe para uma vontade de potência descrita pelo filósofo Nietzsche, que vai além de aceitação e resignação em voltar a vida por um ou outro motivo transcendente (num além da vida), mas pelo motivo maior, por apaixonar-se pelas possibilidades desta existência, para criar, recriar e  se criar (). No contato com outras pessoas, que também tem queixas ressentidas, a medida que se sentem mais integradas as mulheres podem deixar de necessitar do gozo pela repetição ressentida e dar espaço para construções de um eu mais integrado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A figura do outro e do espaço para trocas afetivas tem grande relevância para a captação de momentos significantes, em que vínculos e vivências podem ser ressignificados. Na teoria psicanalítica como na teoria nietzschiana se fala na possibilidade da reavaliação de conceitos e valores pré-concebidos. A sensação de acolhimento possibilita que a sensação de pertencimento e valorização na experiência grupal e, adquirindo conhecimentos práticos e subjetivos, o processo de responsabilização de si mesmas por suas vidas pode ser concomitantemente sendo fomentado.

Ao coordenar o grupo para pessoas deprimidas me identifico em parte com Zaratustra, que vai e volta da caverna – encontro com o grupo e volto as teorias – para buscar formas de tocar aquelas pessoas e de alguma forma captar brechas para promover a vontade de potência dentro de cada uma, para sair de um estado paralisante e se inserir na vida de forma mais ativa menos reativa, oferecer-lhes a perspectiva de um “Super-homem” de Nietzsche para que se sintam capazes de construir seu próprio sentido. Para que no encontro grupal tenham a oportunidade de antecipar para poder experimentar de alguma maneira e estarem melhor preparadas. Viver, e não sobreviver ao sofrimento, mas viver o sofrimento como parte integrada a condição de existir e não apenas desintegradora para a existência humana.

Através da experiência de atendimentos em um grupo para mulheres com sintomas de depressão, me questiono a respeito de alguns casos em que em momentos de crise, “em que a música para de tocar”, e a vida perde o sentido, e que através do tratamento, após algum tempo, a música volta a ser sentida, e a fazer sentido. Podemos pensar na tomada de atitude como capacidade de resiliência, ou uma vontade de potência que volta a inundar este ser até então deprimido? Seria a capacidade de resiliência uma abertura para a vontade de potência se fazer sentir e se criar?

A música “Caubói fora da lei” de Raul Seixas, além da melodia que anima e faz mexer o corpo, tem na letra algo que me remete as teorias de Nietzsche como vontade de potência, morte de Deus, super-homem…lembrando que para entrar para a história o movimento e a responsabilidade deve partir de dentro de cada um, ressaltando a postura crítica e ativa. A ideia de que a crença no sobrenatural e o sentimento de culpa são posturas passivas e “Deus me livre eu tenho medo..”

 

“Mamãe, não quero ser prefeito

Pode ser que eu seja eleito

E alguém pode querer me assassinar

Eu não preciso ler jornais

Mentir sozinho eu sou capaz

Não quero ir de encontro ao azar

Papai não quero provar nada

Eu já servi à Pátria amada

E todo mundo cobra minha luz

Oh, coitado, foi tão cedo

Deus me livre, eu tenho medo

Morrer dependurado numa cruz

 

Eu não sou besta pra tirar onda de herói

Sou vacinado, eu sou cowboy

Cowboy fora da lei

Durango Kid só existe no gibi

E quem quiser que fique aqui

Entrar pra historia é com vocês!”

 

REFERÊNCIAS

 

CAMARGOS S. R. L.; PRONCHO, C.C.S.C. & ROMERO, M. L.C. Desamparo Primordial em Nietzsche e em Freud. Pesquisa e Práticas Psicossociais 3(2), São João del Rei, Mar. 2009.

CYRULNIK, Boris. O murmúrio dos fantasmas/ Boris Cyrulnik; tradução Sônia Sampaio. – São Paulo: Martins Fontes, 2005.

CYRULNIK, Boris. Falar de amor a beira do abismo / Boris Cyrulnik; tradução Claudia Berliner. – São Paulo: Martins Fontes, 2006.

CYRULNIK, Boris. De corpo e Alma / Boris Cyrulnik; tradução Claudia Berliner. – São Paulo: Martins Fontes, 2009.

KEHL, M.R. Ressentimento. Coleção clínica psicanalítica / dirigida por Ferraz, Flávio. São Paulo: casa do psicólogo, 2004.

MARTON, Scarlett. Do dilaceramento do sujeito à plenitude dionisíaca. Cadernos Nietzsche, v. 25, p. 53-82, 2009.

 

NAFFAH NETO Dez mandamentos sobre a Psicanálise Trágica. Rev. Percurso n28-1/2002.

RAUTER, C. Direções para uma Clínica do Esquecimento In:   REVISTA do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense,V.7,no1, Jan-abr/1995.

ZIMERMAN, David E. Como trabalhamos com grupos. (In: David Zimerman, Luiz Carlos Osório [et. al] Como trabalhamos com grupos. Porto Alegre :Ed. Artes Médicas, 1997.

Artigo escrito por:
Instituto Cyro Martins

O Instituto Cyro Martins é uma instituição cientifica que visa o ensino, a prevenção e tratamento em saúde mental, com a participação de uma equipe multidisciplinar.



Gostaria de ler sobre algum assunto que não encontrou aqui? Deixe uma Sugestão

X