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O Complexo Fraterno: Do Conto de Fadas à Psicanálise

Publicado dia: 18/11/2016


Texto da Psicóloga Suzana Viola Rodrigues

 

O presente estudo tem como objetivo aprofundar o conhecimento sobre os fatores constitutivos da inveja, tendo como pano de fundo a rivalidade fraterna, situação presente em todo contexto familiar que tem como pré-requisito, para sua existência, a presença de mais de um(a) filho(a). Além disso, o trabalho irá expor a definição e as formas possíveis de apresentação do Complexo Fraterno e sua implicação para a intersubjetividade e vínculo entre irmãos(ãs). O aporte teórico procederá da escola psicanalítica e pretende aprofundar as questões a respeito dos contos de fadas,focalizando a estória Cinderela para análise de algumas metáforas relacionadas à inveja e à rivalidade fraterna.

Palavras-chaves: Inveja, Vínculo, Rivalidade Fraterna, Complexo Fraterno, Contos de Fadas.

 

SIBLING RIVALRY IN CINDERELA

 

This study aims to deepen the knowledge about the factors that constitute envy, having as a background the sibling rivalry, a situation present in every family context that has as prerequisite for its existence the presence of more than one child. Moreover, this work will present the definition and possible forms of presentation of the fraternal complex and its implication for inter-subjectivity and the bond between siblings. The theoretical framework will come from the psychoanalytical school and intends to deepen issues regarding fairytales, focusing on Cinderella, to analyze some metaphors related to envy and sibling rivalry.
Keywords: Envy, Bonding, Sibling Rivalry, Fraternal Complex, Fairytales.

 
Introdução
 

Este trabalho tem como objetivo identificar as características das relações fraternas e suas possíveis dificuldades e desdobramentos. O material de análise para esses fatores são os contos de fadas que oferecem, através de suas figuras simbólicas, possibilidades para a criança se transportar a um mundo fantástico em que ela possa representar seu mundo interno. Especificamente, foi escolhido o texto de Cinderela para análise do tema da rivalidade fraterna. O referido texto traz peculiaridades da inveja existente entre as irmãs protagonistas do conto. Preliminarmente será realizada uma breve revisão a respeito do vínculo e da intersubjetividade na família – conceitos importantes para a compreensão da relação fraterna.

 

O estudo do vínculo inicial da mãe com seu bebê pode nos auxiliar a compreender o funcionamento da comunicação primária da criança com a figura materna e de como isso se traduz posteriormente na estrutura relacional entre os irmãos. Além disso, buscar a fonte da rivalidade fraterna na infância possivelmente nos auxilia a identificar de forma mais clara seus resquícios na vida adulta, de forma manifesta ou velada, nos discursos de nossos pacientes clínicos, por exemplo. Como foi dito, o trabalho será fundamentado na escola psicanalítica e contará especialmente com os subsídios teóricos dos seguintes autores: Sigmund Freud, Melanie Klein, Bruno Bettelheim, René Kaes, Luis Kancyper, Spitz, Sutil.

 

Conforme Sutil (2005), os processos psicológicos derivam das vivências do próprio corpo; dito de outra forma, a mente é corporal à medida que o biológico e o psicológico se comunicam e se interrelacionam desde a concepção do sujeito.O caráter ou a personalidade, portanto, brotam (1) de uma corporalidade que carrega uma identidade e gênero específico e (2) das condutas advindas do contexto humano. Dessa forma, a personalidade (ou caráter) pode ser reconhecida como uma entidade dinâmica que se relaciona com os aspectos biológicos (inerentes) e sociais (adquiridos).A pauta comportamental é regida pelo padrão mais ou menos repetido que define o estilo do sujeito ser e estar no mundo.

 

Segundo Fenichel (1966), o caráter constitui o elemento organizador da personalidade que se responsabiliza permanentemente em promover uma comunicação e equilíbrio no “eu” entre as exigências instintivas e as demandas da realidade. Em outras palavras, o caráter é aquilo que dá o molde do funcionamento do eu. Em contraponto, Kernberg (1995) afirma que os conflitos intrapsíquicos inconscientes não são uma mera luta entre o impulso e a defesa, mas entre as representações objetais internalizadas opostas. Nas patologias de caráter, os traços patológicos dominam a vida do sujeito através de defesas crônicas. Guerra (2009) define a linguagem universal como sendo a primeira forma de comunicação não verbal estabelecida por códigos em que a criança troca olhares, faz gestos, movimentos e entonações na tentativa de representar para o outro o que transcorre em seu mundo interno. Spitz (1996), dentre outros autores, interessou-se em estudar, através de pesquisas realizadas em creches e hospitais, a observação dos sintomas e efeitos no desenvolvimento biológico e emocional de crianças que foram separadas de suas mães por um período de três meses ou mais.

 

A depressão anaclítica foi descrita como uma síndrome desenvolvida por crianças que receberam até o sexto ou oitavo mês, a exclusividade do bom cuidado materno, mas que, por circunstâncias externas, posteriormente foram separadas de suas mães por um período de três meses. Spitz (1996) observou, em pesquisa em uma creche, que as crianças que desenvolveram sintomas depressivos foram aquelas que tinham uma boa relação com a figura materna, mas que ao longo do sexto ou oitavo mês foram separadas de suas mães. A depressão anaclítica foi descrita pelos seguintes sintomas:
– No primeiro instante, as crianças que até então eram consideradas alegres e sociáveis passam a ser chorosas e exigentes, e em algumas ocorre um comportamento de apego excessivo ao observador.
– Depois de algum tempo, esse choro insistente transforma-se num gemido. Algumas crianças perdem peso e sofrem de insônia.
-Ocorre um retraimento social no qual a criança esconde-se do olhar do outro, desdenha o mundo externo, dando sinais de rejeição a qualquer aproximação de alguém, seja homem ou mulher.
– Apresentam a sintomatologia e a expressão facial semelhante a um adulto em depressão (profundo olhar de tristeza e choro silencioso).
-Todas tiveram uma maior vulnerabilidade a ter resfriados e doenças.
– Nessas crianças, observou-se um atraso no desenvolvimento da personalidade e depois um declínio gradual.
– Apresentam rigidez facial, olhar distante e letargia (quadro avançado da depressão).

 

Spitz concluiu, desse estudo, que a amostra, das crianças que desenvolveram um quadro de depressão anaclítica, foi representada por todas aquelas que possuíam um bom relacionamento com suas mães durante um considerável espaço de tempo (até o sexto ou oitavo mês de vida), mas que, por circunstâncias externas, sofreram uma separação de suas mães por um período aproximado de três meses. No entanto a recuperação dos sintomas depressivos dessas crianças era rápida, se as mães retornavam para seus bebês, no máximo entre três e cinco meses, após o referido afastamento. Pode se pensar que os sintomas depressivos puderam ser dissipados em razão de que a criança recebeu dessa mãe, em seus primeiros meses, um importante investimento afetivo, mesmo que, por ventura, seu afastamento temporário possa ter causado um quadro de depressão anaclítica. Em contrapartida, Spitz observou que as crianças deixadas no período precoce de três meses de vida, em hospitais, e que receberem cuidados de alimentação, higiene e medicamentação, mas que foram desprovidas de investimento afetivo, adoeceram gravemente e tiveram um índice de mortalidade maior em relação ao índice da creche. Esse fenômeno de privação afetiva total foi denominado hospitalismo ou institucionalização. Por fim, ele concluiu que a qualidade do afeto que a criança recebia na ausência da mãe era sinalizador de um prognóstico com boas ou más perspectivas para essa criança.

 

Klein (1946) sustenta que a fonte mais arcaica de relação de objeto do bebê é a que ele adquire nos seus primeiros dias de vida com o seio materno e com a mãe. Tal relação é de fundamental importância para compreensão de como irá se formar a dinâmica da psique em sua tenra infância, o que será influenciado por fatores da constituição própria e influências do meio externo. Deve se avaliar, portanto, se existiu uma privação do meio externo ou um descuido no manejo materno de alimentação e primeiros cuidados que possam ter influenciado na capacidade da criança de sentir prazer e internalizar o seio bom. A respeito da primeira relação de objeto do bebê, Klein (1946) afirma que a criança faz um processo de cisão entre um seio bom (gratificador) e um seio mau (frustrador), resultando em uma separação entre o amor e ódio; tal fase é denominada posição esquizo-paranóide e corresponde aproximadamente aos primeiros três meses de vida. Sob o predomínio de impulsos orais, o bebê sente o seio como fonte de nutrição, e como aquilo que lhe assegura, num sentido mais profundo, a própria vida. O processo de introjeção ocorre à medida que o bebê incorpora esse objeto originário (seio bom) mediante relação de troca com a mãe, e a sente dentro de si.

 

Nesse primeiro estágio esquizo-paranóide (1946), o dinamismo da psique está num interjogo de introjeção e projeção na relação de objeto seio-bebê onde as fronteiras entre as situações externas e internas ainda não são bem limitadas e estão carregadas de sentimentos persecutórios. Posteriormente, se os conflitos próprios e os medos persecutórios dessa fase forem relativamente superados, a criança pode seguir para a posição depressiva, onde há um caminho favorável para um desenvolvimento sadio com características predominantemente neuróticas.
Klein (1956) declara que a inveja constitui essa comunicação primária entre a criança e o seio materno em que ela possui um sentimento raivoso de que algo bom foi lhe retirado (o leite inesgotável) e seu impulso invejoso é de tirar este algo ou estragá-lo. Dessa forma, o primeiro objeto a ser invejado pelo bebê é esse seio nutridor que representa qualidades inconscientes que ultrapassam a função de somente saciar a fome, mas estão imbuídas de fantasias inconscientes. Contribuindo para esse estudo, Kaes (2011) aponta que na visão kleiniana, a inveja representa o medo de perder aquilo que se possui, em especial o amor do objeto, e quando essa experiência é sentida como perda, há espaço possível para que a depressão se manifeste. Além disso, o autor constata que a avidez descrita por Klein refere um desejo infindável da criança em explorar o objeto e fazer exigências dele que vão além das necessidades do ego e do que o objeto possa fornecer.

 

A partir do que foi exposto, pressupõe-se que a criança que pôde viver uma experiência de relativa segurança e satisfação na troca com o objeto seio-nutridor terá mais chances de adquirir um sentimento de gratidão e confiança nas figuras boas, do que aquela que sentiu privação de tais experiências.
Segundo Bettelheim (1979) os contos de fadas proporcionam uma experiência fantástica para as crianças, à medida que ofertam figuras polarizadas em boas ou más, o que reporta à cisão proposta por Klein (1946) entre o seio bom e o seio mau, quando a criança ainda não é capaz de tolerar a ambivalência. Ademais, os contos de fadas possibilitam que a criança entre em contato com seus dilemas e ansiedades existenciais que encontram ressonância nos temas abordados: a necessidade de ser amado e valorizado pelos outros, o amor pela vida e o medo da morte.Gutfreind (2010), baseado em Pavlovsky (1980), assinala que o conto pode ter função terapêutica, à medida que ele possibilita a entrada num espaço lúdico,ou seja,um lugar em que a criança possa se transportar para brincar, criar, imaginar ou até mesmo se aliviar num momento de angústia sem ter a necessidade de recorrer aos sintomas e doenças.

 

Bettelheim (1979) acrescenta que nenhum outro conto pode retratar tão bem os conflitos internos de uma criança no auge da rivalidade fraterna quanto Cinderela. A personagem principal é humilhada, menosprezada e exigida cruelmente pelas irmãs e tem seus interesses desprezados pela madrasta. Além disso, o autor constata que embora os adultos possam considerar um exagero a forma como é representada a humilhação que Cinderela sofre, é exatamente assim que as crianças se sentem em relação aos seus irmãos. O autor observa ainda que a vilania das irmãs descritas no conto autoriza a criança a ter sentimentos raivosos sobre os irmãos, e as libera da culpa. Por fim, Cinderela representa uma fonte de esperança para os leitores na medida em que, ao término da estória, ela vence todos os obstáculos e triunfa de forma gloriosa sobre as irmãs malvadas.

 

Com base nessas observações, o autor conclui que Cinderela conquistou um público infantil masculino e feminino de grande abrangência em virtude da função que o conto desempenha: o texto abarca, em seu conteúdo, a narrativa do conflito fraterno de forma totalmente convincente e possibilita a visão de um futuro melhor para todas aquelas crianças que possuem com a personagem central um vínculo de identidade.

 

De acordo com Freud (1914), o nascimento de um irmão implica a quebra da fantasia onipotente da criança de ser a detentora de poder e exclusividade dos pais. Ao cunhar a expressão “Sua Majestade o Bebê”, Freud descreveu a sensação que a criança tem de ser única e com poderes ilimitados. Nesse lugar, a criança não é frustrada em seus desejos que são realizados de forma imediata e o que tem primazia é o prazer. Os pais da criança, por sua vez, percebem nela a fonte de compensação de suas próprias falhas e faltas registradas desde o narcisismo primário e projetam na criança um futuro brilhante. Ademais, Freud (1917) afirma que a inveja é reativada, com a mesma intensidade, cada vez que nasce um novo irmão, mesmo que a criança receba as preferências da mãe, ela não admite a partilha desse amor e exige dela exclusividade.

 

Segundo Kaes (2011), o complexo na concepção psicanalítica é formado por um conjunto de lembranças e representações inconscientes oriundas das primeiras relações intersubjetivas da infância. Todo complexo é marcado por um conflito que organiza sua forma de se apresentar e funcionar, e no caso do Complexo Fraterno,os irmãos são os representantes das figuras do intruso e do concorrente da mesma geração. A rivalidade foi definida como uma competição necessária entre irmãos para alcançar algum bem que está sob ameaça de falta (o amor da mãe, o seio, o objeto que o outro possui) e que não pode ser partilhado entre os irmãos.

 

O Complexo Fraterno é uma estrutura organizada conjuntamente pela rivalidade e pela curiosidade, pela atração e pela rejeição que um sujeito experimenta diante desse outro semelhante que em seu mundo interno ocupa o lugar de um irmão ou irmã. Deve-se atentar à forma como esse complexo se organiza e funciona. Ele pode se apresentar de uma forma mais arcaica, na qual o irmão é visto como objeto parcial, ou então representar-se numa relação triangular pré-edipiana e edipiana.Sobre a organização psíquica triangular no Complexo Fraterno, ela é marcada por uma relação dual privilegiada em que o terceiro elemento é excluído.Deve se levar em conta que essa relação triangular se caracteriza por ser dinâmica, ou seja, o mesmo elemento que a pouco recebia privilégios se desloca para uma posição desvantajosa. Essa relação triangular funcionacomo uma “dança das cadeiras”.
A respeito da ordem do nascimento dos irmãos e seus destinos, Kancyper (2004) aponta que geralmente se observa que ao filho mais velho toca a função de perpetuar os mandatos do pai que dentre múltiplas possibilidades inconscientes está a de restaurar as feridas e falhas narcísicas que ele próprio não pode cumprir. O filho mais novo, por sua vez, representa o desbravador de novos caminhos e exerce sua busca a nível exogâmico; ou seja, fora do território familiar, já que está destinado ao mais velho ser o legítimo herdeiro e perpetuador das tradições do núcleo da família.

 

Kancyper (2004) elegeu funções importantes do Complexo Fraterno que são:
-Função Substituitiva do Complexo Fraterno – o complexo adquire uma alternativa de substituir ou compensar funções parentais fracassadas. Ela também pode
operar como função elaborativa das questões narcísicas e edípicas ou ter função defensiva à medida que a criança desloca sobre os irmãos a angústia e hostilidade relacionada aospais, e os protege de sua própria agressividade.
– Função defensiva do Complexo Fraterno – opera quando encobre situações conflitivas edípicas e narcísicas não elaboradas. Pode servir, muitas vezes, para evitar ou negar o confronto geracional, assim também como sanar as angústias. No fenômeno de deslocamento se produzem falsos enlaces geradores de múltiplas confusões de significado. Na maioria das vezes, são os pais os responsáveis pelos falsos enlaces enredados que estão no complexo paterno, materno e parental com oComplexo Fraterno. Os pais podem estimular a hostilidade e rivalidade entre os irmãos ao mesmo tempo em que geram uma cena em que os filhos “dividem para reinar”. No conto de Cinderela, podemos encontrar uma madrasta que estimulava a união simbiótica e perversa das duas irmãs: Anastácia e Drisela, (como se fossem uma só) contra os interesses de Cinderela. Em uma das cenas exibidas no clássico da Disney, Cinderela recebe ajuda de seus amigos ratinhos que fazem um vestido com peças de roupas desprezadas e atiradas no chão por suas meias-irmãs. A cena escolhida para análise neste trabalhoestá descrita no seguinte trecho:

 

Cinderela desce as escadas correndo atrás das irmãs e madrasta com seu novo vestido e afirma:
“- Por favor, esperem por mim. Não é lindo? Vocês gostaram? Não acham que ele está de acordo?” Cinderela exibe o vestido que seus amigos ratinhos reformaram e as irmãs olham enfurecidas e respondem:
“- Mamãe ela não pode!” (falam em uníssono).
A madrasta então afirma:
“- Meninas! Por Favor! Afinal fizemos um acordo!” Então ela se aproxima de Cinderela e continua:
-“ Olha, veja que espertinha!Esse colar de pérolas dá um toque especial; você não acha Drisela?”
Drisela olha para o lado com desdém, mas no outro instante se dá conta de que aquele colar pertencia-lhe e então arranca-o do pescoço de Cinderela, enquanto sua irmã Anastácia pega sua faixa de volta, xingando Cinderela de ladra até que ela chegue ao ponto de ficar “depenada” e sem vestido para o baile.
A madrasta então finaliza a discussão; afirmando:
“- Vamos lá, meninas, já chega! Vamos andando as duas! Não quero que se aborreçam.”

 

Nessa cena podemos perceber que a madrasta incentiva a rivalidade e a hostilidade entre as irmãs quando perversamente se aproxima de Cinderela e faz referência ao colar de pérola de Drisela e assim inicia um verdadeiro combate entre irmãs. Ao encerrar a discussão e convocar as “duas” para o baile, deixa mais uma vez Cinderela excluída e fecha a porta literalmente para sua enteada.
A respeito de qual função Cinderela tinha para a madrasta, podemos imaginar que ela poderia ser representante de uma irmã que despertava inveja com atributos notáveis de jovialidade, beleza e gentileza. Outra hipótese é de que por Cinderela ser a enteada da madrasta, ela representava a relação do seu falecido marido com outra mulher.
Função elaborativa – o Complexo Fraterno tem grande importância aocolaborar com o trabalho de elaboração e superação dos registros normais e patológicos do narcisismo e da dinâmica edípica presentes ao longo de toda vida do indivíduo. Além disso, a chegada do Outro representado pelo(a) irmão(ã) auxilia o desprendimento do poder vertical colocado nas figuras edípicas (pais), e desmantela a fantasia narcísica da criança de ter um reinado exclusivo, único.

 

Entretanto quando o sujeito permanece fixado a traumas fraternos, possivelmente não conseguirá avançar na conflitiva edípica e ficará estacionado em uma rivalidade conturbada com seus semelhantes. Ademais, quando essa hostilidade se torna crônica, muitas vezes, aquele que triunfa nem mesmo recebe o gozo de sua vitória e já tem em seguida o amargo de seu fracasso. Nesse sentido, o sujeito se vê impedido de triunfar influenciado por culpas advindas dos conflitos edípicos e fraternos não elaborados. No conto de Cinderela, podemos pensar que a personagem é a representante daquela que será punida se não for obediente às normas. É o que pode ser observado no trecho em que a fada madrinha se dirige à Cinderela e lhe afirma,(na versão de Perrault publicada na obra Contos de Andersen, Grimm e Perrault, 2005):

 

“ – Volte para casa antes da meia-noite. Se demorar um minuto a mais, a carruagem se transformará em abóbora, os cavalos em ratos , os criados em lagartixas, e seu lindo vestido voltará a ser o que era antes.”
“-Prometo que sairei do baile antes da meia-noite”, respondeu Cinderela. E a carruagem partiu veloz.”
Portanto, dessa forma, caso Cinderela não cumprisse o combinado iria perder todos os privilégios concedidos pela fada-madrinha e tudo aquilo que era encantado e transformado em atrativos para o baile voltaria a ser como antes. Além disso, ela mal desfruta de dançar com o príncipe e se vê obrigada a sair cedo para que seu lindo vestido não se transforme em trapos e toda magia não desapareça de forma instantânea. Os atrativos que se perdem subitamente iriam remeter novamente Cinderela à condição de “gata borralheira” da qual ela tenta fugir desesperadamente. A aproximação da meia-noite soa como um alerta para a possibilidade do castigo (as doze badaladas).

 

Por outro lado, Cinderela pode representar não somente a irmã que é alvo de inveja, mas também alguém que igualmente sente inveja, pois, afinal de contas, ela havia sido excluída da possibilidade de ir ao baile até a fada-madrinha aparecer e solucionar seus problemas. Apesar de Cinderela não hostilizar diretamente a madrasta e suas irmãs, no momento em que lhe é dadaa oportunidade de ir ao baile, ostentar um lindo vestido e ser transportada por uma imponente carruagem, ela aceita sem pestanejar.
Neste trabalho foi possível abordar a importância da relação primária da criança com a mãe, o que irá influenciar na constituição de seu caráter e em sua forma de se relacionar com o mundo. Uma das primeiras fontes de socialização da criança é a relação fraterna e nesta reflexão buscou-se aprofundar a importância dessa relação através do estudo do Complexo Fraterno. Considerando-se o Complexo Fraterno, foi visto que ele compreende uma gama múltipla de tramas conscientes e inconscientes que são frequentemente atravessados pela rivalidade e inveja. Para se analisar de forma mais lúdica esses conceitos, buscou-se a literatura dos contos de fadas que oferta figuras simbólicas e plenas de metáforas. A escolha pelo conto Cinderela foi motivada pela existência,nessa obra, de trechos que demonstram a inveja manifesta ou velada. A inveja manifesta revela-se no comportamento das irmãs de Cinderela que a hostilizam direta e frequentemente, prejudicando e mesmo impedindo qualquer possibilidade que ela possa vir a ter de sucesso. A inveja velada é sugerida pela reação de Cinderela quando, na primeira possibilidade que tem de ir ao baile e adquirir pertences de uma verdadeira princesa (vestido, carruagem, cavalos, cocheiro),aceita-os prontamente (da fada-madrinha), vindo, por isso, a destacar-se em relação não só às irmãs, mas transformando-se no alvo da atenção de todo baile.

 

Por fim, foi igualmente possível perceber o quão importante é aprofundar o estudo das relações fraternas. Um dos principais benefícios disso incide sobre a atuação do terapeuta que poderá ter ampliada sua capacidade de escutar e trabalhar com os conceitos relacionados ao Complexo Fraterno de cada paciente. Além disso, o estudo realizado pode ser fonte de estímulo para outraspesquisas que venhama desenvolver com maior detalhe e profundidade algum elemento aqui trabalhado, ou melhor complementar algum aspecto dos tema abordados.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bettelheim, B. (2002). A psicanálise dos contos de fadas. Tradução da 1ª ed. inglesa (1979), por Arlene Caetano São Paulo: Paz e Terra.
Contos de Andersen, Grimm e Perrault. (2005). Ilustrações de Eduardo Trujillo e Marcela Grez. Tradução de Maria Luiza A. L. Paz. São Paulo: Girassol.
Corso, D. L.; Corso, M. (2006). Fadas no divã – psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artmed.
Fenichel, O. (1966). Teoria psicoanalítica de las neurosis. Buenos Aires: Paidós.
Freud, S. (1914/2010). Introdução ao narcisismo: Ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução e notas de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras.
FREUD, Sigmund. (1917/1996). Conferência XXVI: A teoria da libido e o narcisismo, In:______. Conferências introdutórias sobre psicanálise (continuação). Rio de Janeiro:
Imago, p. 413-431. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 16).
Guerra, V. (2009). Indicadores de intersubjetividade (0-2años) en el desarrollo de la autonomia del bebe. Ciclos da Vida. Recuperado em 10 setembro, 2013, de http://ciclosdavida.net.br/wp-content/uploads/2011/06/INDICADORES-DE-INTERSUBJEVIDAD-FINAL.pdf.
Gutfreind, C. (2010). O terapeuta e o lobo: a utilização do conto na psicanálise da criança. Rio de Janeiro: Artes e Ofícios.
Kaës, R. (2011). O Complexo Fraterno. Tradução de Lúcia M. E. Orth. Aparecida-SP: Ideias Claras.
Kancyper, L.(2004). El complejo fraterno – estudio psicoanalítico. Buenos Aires: Lumen.
Kernberg, O.F. (1995). Transtornos graves de personalidade – estratégias psicoterapêuticas. Tradução de Rita de Cássia S. Lopes. Porto Alegre: Artes Médicas.
Klein, M. (1991). Inveja e gratidão e outros trabalhos(1946-1963). Tradução da 4ªed. inglesa, por Elias M. da Rocha e Liana P. Chaves (coord.). Rio de Janeiro: Imago.
Spitz, R.A. (1996). O primeiro ano de vida: um estudo psicanalítico do desenvolvimento normal e anômalo das relações objetais. 7ª edição. Tradução de Erothildes M.B.da Rocha. São Paulo: Martins Fontes.
Sutil, C.R. (2005). El concepto de “carácter” en psicoanálisis. Sobre una patología sin sintomas. Intersubjetivo, nº1,v.7, 5-27.

Artigo escrito por:
Instituto Cyro Martins

O Instituto Cyro Martins é uma instituição cientifica que visa o ensino, a prevenção e tratamento em saúde mental, com a participação de uma equipe multidisciplinar.



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